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Finalmente sou mestre em Jornalismo… E é isto que estou a sentir

12 de Fevereiro, 2019
Depois de entregar os papéis da bolsa escolar para o meu segundo ano de mestrado, cheguei a casa já a meio de um ataque de ansiedade. Começou no meio da rua e acabou no meio da cozinha. Chorava, chorava, chorava. Gritava, gritava, gritava. Ainda nem sequer me tinha matriculado na universidade mas tinha já ali, na garantia de ter novamente apoio académico, a sensação de que estava a ser puxada entre a espada e a parede. Este episódio aconteceu há um ano e meio, sensivelmente. Meses depois, nem sei eu muito bem como… Sou mestre. Uma afirmação que ainda não sei bem como digerir. 

A minha tese de mestrado vai estar sempre associada à minha fase mais depressiva, que nunca escondi de ninguém e que tem, inclusive, a sua marca aqui no blogue em alguns registos.
Paralelamente à inscrição na componente não lectiva, estava também a pedir ajuda e a começar as minhas sessões de psicoterapia. Desde o início que disse que não queria escrever a minha tese. Não me sinto bem, dizia. Não me obriguem a fazer isto porque não vai correr bem, preciso de tempo para mim. Insisti tantas vezes nesta noção de que não me sentia preparada para um trabalho tão sério e cheio de responsabilidade e sentia que ninguém me ouvia, que me estavam a forçar por ignorância quando, na realidade, e percebo agora isso, meses depois, me estavam simplesmente a tentar puxar para a frente. Para não desistir. Para não parar. 
Mas a verdade é que precisei mesmo de tempo para mim. Em vez de escrever a tese em seis meses, escrevi-a num ano. Precisei de mais um semestre e tive ainda que atrasar mais um mês. Tive que ver imensos colegas meus a apresentarem antes de mim, a seguirem com as suas vidas ao mesmo tempo que havia aquela sensação cá dentro de “também podias estar ali, mas andas a adiar tudo e não tens mais ninguém que culpar se não a ti mesma”. E se desse lado estão a passar pelo mesmo, quero garantir-vos que não há nada mais tóxico do que acharmos que temos de ter o mesmo passo que os outros. Não é saudável. Não é bonito. Atrasa-nos mais do que nos ajuda. E foi algo que tive de abandonar a meio desta caminhada para aprender a valorizar-me a mim e ao meu trabalho. 
Todos os dias, ao ligar o computador, queria desistir. Na minha cabeça estava a ser obrigada, forçada a um trabalho que não queria fazer, culpava-o por não me conseguir sentir melhor, por não ter tempo e disposição para cuidar de mim… Escrever uma tese já é, só por si, um peso grande no quotidiano de uma pessoa. Implica dedicação e um empenho que nem sempre é compatível com o nosso estado de espírito ou possibilidades. Muita gente desiste por questões de dinheiro, de trabalho, de saúde. Equacionar esta noção com o peso adicional e constante de uma depressão em cima não é fácil. 

Mas eu consegui. 


Afirmar o orgulho de mim mesma assim, desta forma tão honesta, ainda me é um pouco estranho. É tão anti daquilo que eu sou, uma pessoa que desde sempre detestou o seu reflexo no espelho. Mas a verdade é que não dependeu de absolutamente ninguém a não ser de mim mesma. Fui eu que me levantei. Fui eu que, passados seis meses sem fazer nada, 1000€ de propinas adicionais e uma sensação de humilhação e ridículo pelo meio, decidi dedicar-me a um trabalho que eu queria, efectivamente, fazer. E a verdade é que quando a minha tese começou a ganhar forma, contornos, vida, a minha auto-estima e a minha boa disposição subiram imenso. 
De uma forma que ainda não consigo muito bem explicar, é dar-vos a certeza de que ganham auto-estima quando seguem em frente, mesmo que não acreditem em vocês. Então, sem se aperceberem muito bem como, já vão a meio caminho e entendem que estão a gostar do que estão a fazer. E decidem continuar. Aprendem a aceitar as escolhas que vos levaram até àquele momento, esforçam-se ainda mais para continuar a ter aquela sensação de espécie de felicidade e, mais uma vez, sem se aperceberem, sentem-se mesmo felizes. E a maior surpresa é aperceberem-se que devem essa felicidade a mais ninguém do que a vocês. Neste momento, é esta a minha definição de amor próprio. 
Eventualmente, gostava de falar do pânico que senti ao ir fazer a última apresentação oral dos próximos anos. Da sensação agridoce que é abandonar o ensino académico, aquele período da nossa vida que não é propriamente forçado mas também não é mais do que a obrigação, pois estamos a fazer o que é suposto, normativo. Para já, no entanto, queria apenas abordar estas dualidades da minha vida que no último ano e meio tomaram conta da minha vida e encontraram-se tantas, tantas vezes. 
Agora deste lado, oficialmente mestre e a caminho da próxima etapa, não posso dizer-vos que é fácil, que dei razão a todas as pessoas que disseram que era fácil, que não é assim tão mau quanto parece. Eu quis desistir tantas vezes, tive tantos dias onde estava absolutamente intratável, sentia-me falhada 95% das vezes em que acordava e é preciso um compromisso com aquilo que estamos a fazer que não nos apetece cumprir a toda a hora. Todavia, a minha perspectiva é uma que para muitos desse lado pode parecer incompatível, já que eu tive também de lidar com a minha depressão e ansiedade.
Na minha história, pela primeira vez, considero-me heroína. O primeiro dia em que senti esses 5% foi, sem dúvida, o início de muitos outros. Foram 140 páginas que me deram a certeza de muitas coisas. Adoro escrever. Adoro contar histórias, ou não teria entrado para Jornalismo à procura da minha vocação. E, surpreendentemente, adoro a minha escrita. Adoro aquilo que faço. Mesmo que não faça (ainda) nada. 
Um ano e meio depois, estou tão longe da Sónia que teve um ataque de ansiedade porque não queria terminar este mestrado. Era uma Sónia tão magoada, tão fragilizada, tão insegura. Hoje continuo na mesma insegura por variadas razões, mas tenho uma bagagem daquelas a caminho do aço. Sinto-me mais completa do que alguma vez fui. 
Não é o título de mestre que me faz sentir assim. É o percurso de ter chegado até lá. 
Por isso… Parabéns a mim. ❤
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  • Reply
    Andreia Morais
    13 de Fevereiro, 2019 at 0:03

    PARABÉEEEEEEEEENS ♥
    Mais do que a designação em si, que tem toda a sua importância, pois é uma etapa de aprendizagem riquíssima, acho que é louvável o percurso que traçaste. Porque, mesmo com todos os contratempos, conseguiste ser mais forte e não desistir. Lutaste pelo teu objetivo e por ti. E, hoje, estás a celebrar esta conquista. Fico mesmo feliz por ti, minha querida.
    Consegui perceber a frustração de ver os outros a avançar, muito impulsionada por esse pensamento constante de «podia ser eu ali, mas adiei», porque também não defendi a minha tese no tempo certo, digamos assim. Mas, por mais cliché que soe, acho que tudo tem uma razão de ser.
    Um feito que merece toda a celebração possível. Mereces!

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      14 de Fevereiro, 2019 at 15:46

      Obrigada, minha querida Andreia. Como sempre, os teus comentários aquecem o coração. Que se dane os clichés, acho que é mesmo isso: tem tudo uma razão de ser e um propósito. Olho para a minha defesa e percebo porque é que teve de ser agora e não antes – ou depois. Isso é muito importante, pelo menos na definição daquilo que somos e queremos ser, eu acho. Muito obrigada e um grande beijinho 🙂

  • Reply
    Vanessa Teixeira
    13 de Fevereiro, 2019 at 13:45

    Muitos parabéns, minha querida!!
    Entendo o teu medo e a tua ansiedade, estou no processo de escolher o tópico da minha tese e já me sinto assim, imagino quando começar a escrevê-la (e quando tiver que a defender ��)…
    Beijinhos e felicidades ❤

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      14 de Fevereiro, 2019 at 15:47

      Boa sorte para esta nova etapa da tua vida, Vanessa! Percebo o sentimento de ansiedade, mas no final acabas por ter uma grande sensação de compensação. O trajecto é difícil, mas o resultado é delicioso 🙂 Beijinhos e muito obrigada!

  • Reply
    Mary
    16 de Fevereiro, 2019 at 0:34

    Antes de mais, parabéns, Sónia! Que excelente notícia, tu mereces mesmo. E, como referes, não é o título, mas sim o caminho até lá, todos os buracos que saltaste para poderes estar onde estás agora. Só tens de estar orgulhosa de ti, porque persististe, mesmo quando, ao mesmo tempo, te tentavas atrasar.
    Fico imensamente feliz por ti e por esta conquista, por este amor que conquistaste, por ver que deste mais um passo importante para que te sintas bem contigo.
    Beijinhos <3

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