Sem categoria

Quando a tua sombra constante se chama ansiedade

26 de Janeiro, 2019
Há uns meses atrás voltei a ter um ataque de ansiedade. Fui sair à noite com o meu namorado e uns amigos e acabei num estado tal que a festa acabou mais cedo para toda a gente. Houve uma montanha russa de emoções que passou por mim, variando entre a frustração de nunca mais conseguir acabar com esta merda de incidentes que, de uma maneira ou de outra, controlam a minha vida, e o sentimento de culpa de ter estragado mais uma noite com a minha saúde mental. 

A ansiedade é como uma bola de neve. A certa altura, já estamos com medo dela, a pensar na avalanche que pode vir a acontecer. Começamos a hiperventilar com a ideia de, eventualmente, começar uma catástrofe interior e quando damos por nós já estamos a rolar montanha abaixo sem conseguir parar. Sem travões, só aceleradores. É assim que me sinto 90% das vezes que tenho novos ataques de ansiedade. Já não é um “surprise, bitch!” e mais um pânico consciente de temer o que vem aí. Por vezes, consigo controlar a coisa e não chego a um estado catatónico. Outras vezes, como o último ataque de ansiedade que tive, só me volto a sentir bem quando estou enfiada na minha zona de conforto, o que normalmente significa dentro do meu quarto e debaixo de 30 lençóis. 
Não tenho vergonha de falar sobre os meus ataques de ansiedade ou sobre as minhas consultas de psicoterapia. Nunca escondi de ninguém que o último ano tem sido transformador em todos os sentidos, e todos os meus amigos sabem verdadeiramente as razões, os porquês, a história por detrás disto tudo. Desse lado, pode haver um revirar de olhos e também um pouco aquela sensação de oversharing, mas eu sempre considerei terapêutico e educativo falar sobre saúde mental nas redes sociais, nos blogues ou em qualquer outra plataforma que dê uma perspectiva de “não estás sozinho(a)“. Para além disso, sei que toda esta temática ainda é muito tabu em Portugal, e que ainda existe na cabeça de muita boa gente o estigma de que ir a um psicólogo é ir ao médico dos malucos, entre outras afirmações que me irritam mais do que surpreendem. 
A verdade é que nem sempre consigo abordar correctamente a minha experiência aqui para o blogue. Vai fazer quase um ano desde a última vez que escrevi para os meus self-love tales, um conjunto de textos onde resolvi falar sobre o processo de começar a gostar de mim. Eu nem sempre consigo explicar o que estou a sentir sem ser absolutamente evasiva em relação ao porquê de me sentir assim, e não sei se alguma vez me vou sentir à vontade em dizê-lo para toda a gente. É íntimo, é meu. No fundo, acabo por estar em conflito entre aquilo que quero realmente escrever e aquilo a que me permito escrever. O que acaba por ser uma frustração do caraças, como podem imaginar. 
Perdi um bocado o nexo daquilo que queria escrever para aqui. Penso que queria falar da ansiedade, de forma geral, por ser uma espécie de companheira constante na minha vida. Há dias que são horríveis. Há dias que a ansiedade entra em conflito com a depressão, e estou horas frustrada com a sensação de que vou morrer daqui a cinco dias e não estou a ser produtiva suficiente, trabalhadora o suficiente, boa namorada o suficiente, boa filha, neta, sobrinha o suficiente, boa amiga o suficiente. Há dias em que a única coisa que faço é culpar-me de tudo e mais alguma coisa. Aquela discussão que aconteceu há dez anos atrás? Fui eu. O meu falhanço profissional daqui a dois anos que low-key me vai fazer viver debaixo da ponte? Eu, eu, eu. A subida de Donald Trump ao poder? Adivinharam, fui eu. Acabo por não conseguir ser produtiva porque estou a culpar-me por não me mexer para ser produtiva. Não consigo escrever. Não consigo investir no blogue. Às vezes (e ainda) só consigo mesmo investir na minha própria cama. 
Há uma semana fui a um neurologista. A minha família conseguiu convencer-me precisamente por causa do último ataque de ansiedade que tive. Na minha cabeça, fui para lá com a ideia de arranjar apenas um medicamento sos para quando fosse sair. Era reconfortante para os meus níveis ansiosos saber que havia uma solução ao alcance da minha mão, mesmo que não chegasse a utilizá-la. Todavia, a consulta foi um tanto surreal – no sentido positivo. Aquele médico, que desconfio ter uma veia de psicólogo ali pelo meio, perguntou-me porque é que eu estava ali várias vezes e ia-me desmanchando a chorar só pela maneira como olhava para mim. Saí de lá com o comprimido sos e um antidepressivo indicado para pessoas com ansiedade e ataques do género. 
Eu, que sou a primeira pessoa a falar de estereótipos e estigmas relacionados com depressões, fiquei frustrada comigo mesma por ter concordado com aquilo. Não estou assim tão mal para precisar da porra de um medicamento, foi a primeira coisa que me passou pela cabeça. Resolvi confiar, pois conhecia outras pessoas que tinham sido medicadas por aquele médico e havia uma espécie de reputação de ele só medicar o que é verdadeiramente necessário. 
Uma semana depois. uma semana depois. Comecei a sentir os efeitos e a sentir-me melhor. Não, eu realmente não estava propriamente mal antes; todavia, também não posso dizer que estivesse bem. As noites em que é difícil adormecer ao pensar no quão má vai ser a minha defesa da tese. As noites em que é difícil adormecer por causa de tudo, na realidade. Pequenos detalhes que eu desvalorizava porque já faziam parte de mim todos os dias, que eu achava que nunca iriam embora e que, surpreendentemente (not) acabaram por desaparecer só nestes últimos dias. 
Não me iludo a achar que a medicação vai transformar a vida em arco-íris e unicórnios. Lidar com a ansiedade é muito mais do que apagá-la com comprimidos, e passa também por aceitar que ela existe por uma razão. Uma das coisas que mais religiosamente guardei das minhas sessões de psicoterapia foi que, no meu caso específico, a ansiedade funcionava como um meio de protecção. Um escudo disfuncional e que funciona pessimamente, yeeeeep, mas ainda assim um escudo que me tenta proteger de tudo. A minha missão, entre muitas outras coisas, é simplesmente arranjar mecanismos para que nem tudo seja uma ameaça-nível-bomba-atómica na minha cabeça. E isso continua a ser um trabalho diário que não vai embora assim tão cedo. 
Acho que vou incluir isto nos meus self-love tales. Afinal de contas, aprender a lidar com a minha parte mais vulnerável e frágil também é amor próprio. Se chegaram até ao fim deste relato maçador sobre a minha saúde mental, obrigada. Nestes casos, não sou necessariamente eu que vos ofereço algo neste blogue, mas vocês a mim. Paciência. Compreensão. E, de certo modo, amor. ❤
OS OUTROS TEXTOS RELACIONADOS COM ESTA JORNADA DE AMOR PRÓPRIO:
Perdoar quem somos

SEGUE-ME NAS REDES SOCIAIS 
Facebook • Instagram • Youtube • Twitter • Goodreads
  • Reply
    Carolina Sofia
    26 de Janeiro, 2019 at 19:58

    Já estive muitas vezes com ataques de pânico de tal forma que pensava mesmo em terminar com tudo, de uma vez por todas. Não sabia controlar (e não dá pra controlar), nem sequer pensar coerente de forma a tentar parar, a respirar. Até que, um amigo meu começou a falar-me do que fazia, que nunca mais tinha tido um por causa disso mesmo. Meditação. Quando começo a ter algum, saco os auriculares e ponho a tocar a meditação. Geralmente, acontece-me os ataques sempre à noite, portanto a mente desliga (por completo mesmo) e durmo. O bom daquela meditação em concreto é que podes adormecer. Ela irá funcionar na mesma. Prefiro confiar nisto e usar isto, do que tomar medicamentos. Recuso-me mesmo. Mas, se te sentes melhor ao tomá-los então espero que melhores mesmo! É claro que leva tempo. Quanto ao blog estou como tu. Não há maneira nenhuma de me sentar e escrever. Não sai nada. Não sei nem como começar ou se me permito escrever o que realmente quero escrever. Complicado. 😐 beijinho grande! 🖤

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      28 de Janeiro, 2019 at 19:31

      Nunca tive ataques de pânico. Sei por norma que são muito mais violentos e conheço pessoas que entram em blackout autêntico até conseguirem acalmar. Para uma pessoa como eu, cujos ataques de ansiedade são terríveis, não consigo imaginar o patamar a seguir. Penso que a meditação é uma excelente forma de combateres esses teus ataques, e fico muito feliz por conseguires funcionar com eles. Infelizmente comigo, tenho, por norma, ataques de ansiedade quando saio à noite em ambientes de festa, álcool, etc. Meditação relaxada ao ponto de me dar vontade de dormir não funcionaria bem comigo, até porque os meus ataques são uma resposta ao ambiente que me rodeia (geralmente, mas não sempre). Não sei o que vai acontecer quando voltar a sair à noite agora que estou a tomar medicação, mas espero que me ajude para que, eventualmente, consiga sair sem me sentir a desgraça da noite. Em suma, e acho que é o mais importante de tudo, arranjarmos os nossos mecanismos, que se enquadram a cada um de nós, para nos sentirmos melhor. Um beijinho muito grande, muita inspiração para esse teu blogue (que eu tão bem entendo esse bloqueio!) e obrigada pelas tuas palavras de força 🙂

  • Reply
    Juliana Pinto
    26 de Janeiro, 2019 at 20:08

    É frustrante passar por isso!!
    Muita força, e as pessoas que não compreendem, ignora, trata de ti e da tua saúde.
    Eu, não muitas vezes tenho ataques, dizem que é de pânico, i do not know, mas só tenho quando no trabalho me enervam ou se exaltam ou se berrarem alto, mesmo que não seja comigo. E não ter controlo no nosso corpo, é tão mas tão mau, sentir falta de ar quando tens ar, e depois de passar o pânico vem o choro, é péssimo!!

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      28 de Janeiro, 2019 at 19:33

      É realmente muito mau quando isso acontece. Uma sensação de ausência de controlo e de desespero que acho que é preciso saber como é para entender do que se está a falar. Espero que melhores e ofereço-te um beijo de muita força 🙂

  • Reply
    Andreia Morais
    26 de Janeiro, 2019 at 22:57

    Acredito que seja uma verdadeira montanha russa, porque há uma série de fatores a condicionar a nossa estabilidade mental. E, quando damos por isso, entramos numa bola de neve; num ponto (quase) sem retorno.
    Honestamente, sinto que, cada vez mais, é crucial falar sobre a saúde mental. E é bom perceber que há pessoas dispostas a partilhar a sua experiência, porque pode ajudar alguém que esteja a passar pelo mesmo.
    Adorava, de coração, que não tivesses que lidar com algo tão angustiante, mas acredito que esse amor-próprio e esse trabalho diário te ajudarão <3

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      28 de Janeiro, 2019 at 19:36

      Obrigada, querida Andreia. Realmente, acho cada vez mais importante abordar saúde mental. Não é uma história da carochinha, é uma problemática real que afecta cada vez mais pessoas, principalmente na nossa geração e gerações mais novas. Enquanto blogger, tendo uma plataforma disponível à minha frente e passando por uma situação destas, sinto a necessidade de partilhar. Não só por mim, mas pelos outros também. Obrigada, mais uma vez. Do coração <3

  • Reply
    Mary
    27 de Janeiro, 2019 at 2:36

    Nunca tive um ataque de pânico, felizmente, não sofro de ansiedade. No entanto, convivo de perto com alguém que sofre com isto e acho que é algo que não se pode desvalorizar e deitar para canto, porque isto não é uma brincadeira ou uma mania como muitas pessoas lhe chamam, argumentando com o "ai, às vezes também me sinto ansiosa". É sério e, ainda que eu não saiba verdadeiramente o que se sente, acho necessário e importante falar-se disto, para que deixe de ser tabu, para que se deixe de menosprezar. Quem partilha a sua história, como tu, é só verdadeiramente corajoso, além de que pode ajudar alguém que sente o mesmo.
    Não sei bem o que te dizer, porque para quem está deste lado torna-se sempre mais fácil aconselhar e falar, apenas te digo para continuares a lutar, ao teu ritmo, à tua luz. Isto é uma luta tua, que vencerás, sem pressas. E esse amor próprio de que falas só te dar+a razões para continuar em frente, envio deste lado um abracinho e um beijinho gigante, força querida <3

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      28 de Janeiro, 2019 at 19:40

      Fico sempre de coração cheio com os teus comentários, Mary! És sempre tão doce e tens sempre uma palavrinha de encorajamento. Obrigada por isso, significa muito. De facto, ainda há muita gente que acredita que este tipo de fragilidades não são sérios, antes uma predisposição de "não me apetece fazer isto, vou dizer que estou nervosa ou ansiosa e vou ignorar". Não, é tão mais do que isso. Tão mais sério, angustiante e complicado. Espero verdadeiramente que nunca o venhas a experienciar e que essa pessoa que acompanhas fique melhor no futuro. Mais uma vez, obrigada. Também acredito que vou ultrapassar isto tudo 🙂

  • Reply
    Margarida Póvoa
    28 de Janeiro, 2019 at 18:13

    Não estás sozinha.
    Pensei se devia ou não partilhar parte da minha história, por isso, peço-te apenas um pouco de paciência para ler este comentário. Nunca sei por onde começar, ou sequer se o devo fazer, e acabo por me distrair com outras coisas. Há quatro anos que comecei a ter ataques de ansiedade. Estava no meu último ano de licenciatura e lembro-me perfeitamente dessa noite. Foi em Dezembro e pensei que ia morrer. Só me consegui acalmar quando os meus pais me disseram para dormir na cama deles, porque não havia maneira de conseguir estar sozinha no meu quarto. Comigo mesma. Na manhã seguinte, foi ao médico para saber o que é que me tinha acontecido e a médica, com um sorriso no rosto, receitou-me uns medicamentos para dormir. O resto do ano correu com os seus altos e baixos, como todo o bom ano académico, não é verdade? Até que termino a licenciatura e me candidato a mestrado. O primeiro ano correu razoavelmente bem. O segundo foi um desastre.
    Perdida e sem saber o que fazer, a quem pedir ajuda (a não reconhecer que precisava de ajuda), vi o ano chegar ao fim. Vi a minha família passar pelo pior ano que me lembro, sem saber como ajudar e culpando-me por isso, por não ter controlo sobre uma situação que ninguém controla; não tinha trabalho para apresentar, sem saber como ou o porquê de tal ter acontecido (terá sido preguiça? falta de empenho?); e vi os meus colegas a terminaram e a entregarem o trabalho deles (se eles conseguiram, porque é que eu não fui capaz?). Foi somente no Verão do ano passado que me apercebi que precisava de ajuda. E caso ainda tivesse dúvidas, os meses de Setembro e Outubro foram dos piores que alguma vez vivi. Não tinha vontade de me levantar, de sair de casa, de tomar banho e de me vestir. Aliás, se bem me lembro, não tinha sequer vontade de viver. Estava tão embrenhada naquele ciclo que a única maneira que via para me libertar a mim, à minha família e aos meus amigos, era não ter de acordar mais.

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      28 de Janeiro, 2019 at 19:49

      Oh, Margarida. Fiquei tão tocada com tudo isto. E um tanto emocionada também, confesso. Entendo tão bem tudo o que tu disseste. Também comecei a ter os meus ataques de ansiedade na minha licenciatura. No segundo ano, para ser exacta. No primeiro ataque que tive, andei quarenta minutos a pé, chorei durante quatro horas seguidas e só me acalmei quando o meu namorado veio ter comigo e me ajudou até adormecer. Esse segundo ano foi horrível, o terceiro foi mais ou menos. Depois, mudei de cidade. Fui para Lisboa tirar o Mestrado e sentia-me mal em todo o lado. Não conseguia sair à noite com os meus amigos, acabava a vomitar e a chorar e a ter que ir embora para um sítio onde me sentisse segura. Durante todos estes anos recusei-me a admitir que precisava de ajuda. Recusei-me a admitir que estava mal, embora me sentisse na merda por ver a posição em que colocava a minha família, namorado e amigos. A festa acabava quando os meus ataques começavam. O meu namorado perdia horas a ver se estava bem. E a minha família queria ajudar-me e não sabia como. Sentia-me tão culpada de tudo, tal como tu. Era uma aluna medíocre no mestrado, quando sempre fui boa aluna em tudo o resto, perdi o gosto pelas aulas e embora não me recusasse a sair à noite, diminuí em muito as saídas para todo o lado. E chegou uma altura em que também tive que admitir que precisava de ajuda e que já não podia continuar assim.

  • Reply
    Margarida Póvoa
    28 de Janeiro, 2019 at 18:14

    Lembro-me perfeitamente do que me foi dito na minha primeira consulta de psicologia: estava muito cansada e muito triste. Quase me desmanchei em lágrimas em frente à psicóloga. Disse-lhe que, o que quer que eu tivesse, que tinha de parar. Já não aguentava mais. Viver assim não era viver de todo. Também me lembro de lhe ter dito, quando ela me aconselhou marcar uma consulta de psiquiatria, que não queria medicamentos. Que queria combater isto sozinha. A minha primeira consulta de psiquiatria foi há coisa de duas semanas.
    Nunca pensei que um ataque de ansiedade pudesse durar quase uma semana. Não dormia, não me acalmava e parecia que me tinha tornado na minha pior inimiga. Senti que estava a ter um enfarte e tive de pedir aos meus pais que me levassem às urgências de madrugada. Mas mesmo assim sentia-me terrivelmente mal. Física e psicologicamente. Sentia-me horrível por ter acordado os meus pais, por os ter arrastado para o hospital a meio da noite por não me conseguir controlar, por não ser capaz de fazer isto sozinha. O meu pai quase que se zangou comigo por eu lhe estar sempre a pedir desculpa. Mas que mais podia fazer quando sentia que tudo o que estava a acontecer era culpa minha? Esse passeio nocturno, no entanto, nada fez por mim. Dormia e comia mal (nem todo o chá de camomila do mundo me poderia ajudar) e sentia que estava à beira de um enfarte a cada cinco minutos. Foi uma semana bem longa. Mas houve duas coisas que me ajudaram: os livros (a saga Harry Potter é realmente mágica) e meditação (que ainda estou a dar os primeiros passos).
    Neste momento, foi-me receitado apenas um medicamento para me ajudar a dormir, mas apenas o tomei uma vez. Metade dele. Há dias em que me sinto extremamente cansada, desanimada, sem vontade sequer para me meter debaixo do chuveiro; há outros em que penso que sou capaz de mover montanhas. Mas o que eu gostava de deixar claro é que não temos de ter medo de partilhar as nossas experiências. Contra mim falo. E se eles não entendem? E se eles acharem que estou a arranjar desculpas? E se eles me disserem que nervosos estamos todos em dada altura da vida? Se eles assim o fizerem, pronto; mas e se eles estiverem a passar pelo mesmo ou se conhecerem alguém que esteja a passar pelo mesmo e não saibam ao certo o que fazer? Não tenho qualquer dúvida que a saúde mental deveria ser mais discutida em Portugal. No mundo inteiro. Por isso é que, deste lado, te envio um grande abraço e muita força para continuares, sem desistir!

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      28 de Janeiro, 2019 at 20:01

      A primeira vez que fui à minha consulta de psicoterapia, tive uma espécie de ataque de ansiedade porque só me assolava um pensamento na mente: "Eu vou chegar lá, vou sentar-me e contar-lhe o porquê de estar ali e ela vai dizer-me que isto é tudo tretas e que estou só a ser dramática, que não preciso realmente disto". Tinha um medo estúpido de as pessoas olharem para mim e acharem que estava só a ser drama queen, a tentar agarrar atenção – o que acabou por ser uma grande razão para arrastar durante tanto tempo o meu pedido de ajuda para voltar a sentir-me bem. Acho tão importante dizeres que os livros e a meditação te ajudaram, porque significa que tens dois alicerces que te ajudam a estabilizar um pouco esse equilíbrio que tanto procuras. Pode ser só uma percentagem mínima, mas é melhor do que nada e fico muito feliz por os teres na tua vida.

      A medicação, até certo ponto, é uma escolha. Sem ela, por exemplo, uma das pessoas mais importantes da minha vida provavelmente não estava aqui. Deu-lhe o apoio necessário para ter vontade de andar novamente. A medicação não a meteu a andar de novo, de todo. Como a minha psicóloga diz, funciona como uma bengala que nos permite dar os passos em direcção ao resultado a que queremos chegar. Percebo porque é que muita gente é contra a medicação, por causa do desmame e da sensação que nos estamos a agarrar a algo semelhante a toxicodependência, ou sei lá. Acho que, no fundo, é uma escolha da pessoa e que se conseguirmos arranjar outros mecanismos que nos ajudem a combater o que estamos a sentir, melhor. Pessoalmente, ainda não consegui arranjar nenhum e também já vou com 4 (?) anos disto. Daí ter optado pela medicação e dizê-lo em voz alta. Não estou com isto a dizer que recomendo a medicação a toda a gente. Quis apenas expor a minha experiência de forma muito honesta 🙂

      Para ti, também tenho que te mandar um grande abraço, bem apertadinho, e muito amor. Acho que estás rodeada por um círculo forte de pessoas que te querem acompanhar, ver bem e que acreditam em ti. Eu também acredito em ti. Há muita força e determinação em dares a volta a esses teus problemas e eu também te digo o mesmo que me disseste a mim: não estás sozinha. E se alguma vez quiseres falar, estou aqui para ti. Um grande beijinho, Margarida <3

  • Reply
    Hélia Pereira
    29 de Janeiro, 2019 at 11:49

    A relação com a ansiedade é diferente para todas as pessoas e toda a gente deve arranjar algo que resulte para si mesma, pelo menos eu acredito nisso.

    Eu há uns anos, depois de ansiedade e depressão e uma tentativa de suicido acabei numa psiquiatra, a qual odiei. Não só porque o tempo para a psicoterapia parecia cronometrado, como as vezes ela parecia não me querer dar ouvidos e começava logo a passar a receita, como se a solução para tudo fosse mais medicamentos, mas calmantes, mais antidepressivos. Cheguei a uma altura em que me sentia tão estranha que parecia que não sentia emoções, estava completamente anestesiada com a medicação. E para mim foi o ponto final. Deixei de tomar a medicação, deixei de ir as consultas. Comecei a ler livros sobre o tema, livros de psiquiatras que abordam o tema de uma forma real, e comecei a perceber que apesar da origem da depressão e ansiedade poder ser muito diferente as vezes a solução mais simples é dar ouvidos ao nosso corpo. Ele precisa de atenção, precisa de muito amor e cuidado. E a realidade é que fazer desporto ajudou, a meditação ajuda, ter cuidado com a alimentação ajuda, tudo o que seja cuidar de mim ajuda. E sei que isto comigo resultou e agora sinto-me bem noventa por cento das vezes e sei lidar com as alturas em que não me sinto bem. E gosto demasiado de mim mesma para me deixar voltar a estar naquele estado.

    E espero que tu encontres uma solução ou varias soluções que ajudem para ti. Sei que isso é diferente para toda a gente, mas o importante é não ter medo de pedir ajuda. E não perder a cabeça senão resultar logo a primeira. É possível viver com ansiedade e não deixar que isso nós defina. Eu falo por experiência própria.

    Fica bem 🙂

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      31 de Janeiro, 2019 at 12:01

      Em relação aos psiquiatras, e embora tente não criar um estereótipo em relação a eles, tenho sempre a sensação de que são como descreveste, numa de tentar despachar medicação sem ouvir realmente o paciente que têm à frente. Tenho a certeza absoluta que é extremamente injusto fazer esta suposição generalizada, pois devem haver imensos psiquiatras que fazem o seu trabalho correctamente. Pessoalmente, este neurologista em específico foi o mais indicado para mim pois conhecia o seu trabalho e havia confiança mediante o que ajudou com pessoas que conheço. De outro modo, acho que nunca concordaria a ir a uma consulta deste género, para ser honesta.

      Mais uma vez a título pessoal, a medicação já me está a ajudar imenso. Sinto o meu corpo a responder positivamente e ainda só passaram 12 dias. Mas sei que isso não é o caso para toda a gente e apoio a 100% outras opções mais adequadas para aquilo que estão a sentir. Acho que o mais importante é mesmo sentirmo-nos confortáveis, seguros de nós mesmos e com a noção de que estamos a fazer as escolhas certas. E sim, definitivamente pedir ajuda. Foi isso que me ajudou, porque de outro modo não estaria onde estou hoje.

      Espero que continues nesse patamar que estás hoje e que sejas muito feliz. Ouço falar tanto de meditação, principalmente desde que publiquei este texto, que fiquei curiosa e com vontade de pesquisar sobre isso. Obrigada por tomares do teu tempo para falar comigo sobre isto. E que continuemos as duas a melhorar, sempre para a frente 🙂

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: