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O Poder | Naomi Alderman

11 de Dezembro, 2018

É muito raro dar uma review negativa a um livro. Tenho por hábito ler uma obra não só como leitora, mas também enquanto escritora, pelo que consigo sempre apreciar certos pontos que, de outro modo, me seriam indiferentes. No Goodreads, por exemplo, só classifiquei 10 livros com duas estrelas e 3 livros com uma estrela apenas. O Poder (2016), não pertencendo a nenhuma das categorias anteriores, acabou por receber três míseras estrelas na minha avaliação. Em grande parte, foi daquelas histórias com imenso potencial que, no final, acabam por não ser mais que uma verdadeira desilusão.

O Poderjá recebeu uma carrada de prémios e é considerado um bestseller daqueles que valem a pena. Já foi comparado a obras como 1984 (1949), de George Orwell, e A História de uma Serva (1985), de Margaret Atwood. Penso que a ideia é apontá-lo como um futuro clássico, algo que para mim é excessivo porque, lá está, não gostei do livro e considero o big brother de Orwell uma das melhores obras de sempre. Ainda assim, consigo entender o porquê de tanto entusiasmo e tantas referências de comparação. Até porque não foi um livro propriamente intragável, longe disso.

Ficção científica, universo distópico e feminismo: é nisto que se baseia a história. Através de quatro pontos de vista distintos – Allie, Roxy, Tunde e Margot – relata o que acontece quando um poder inexplicável é descoberto no sexo feminino, oferecendo às mulheres uma arma que rapidamente lhes presenteia com a oportunidade de serem o sexo superior. A revolução transforma o mundo num matriarcado com proporções extremistas de índole política, religiosa e até económica. O que começa com a capacidade de expelir electricidade das mãos acaba num culto que origina guerras, censuras e perda de liberdade por parte do agora sexo inferior – o masculino.

Allie começa uma nova religião, onde o Deus é na verdade uma mulher que trouxe ao mundo a Mãe Eva para ajudar toda a gente. Roxy mostra o mundo da droga e dos excessos e aquilo que pode acontecer do ponto de vista ilegal. Tunde é um jornalista e, pessoalmente, o mais interessante dos quatro, indo atrás das revoluções, dos tumultos, das guerras e do poder político. Margot, por seu lado, é política e acaba a criar um centro de formação para treinar todas as jovens de modo a conseguirem controlar os seus poderes.

esta edição é da saída de emergência e é das mais bonitas que eles fizeram, do princípio ao fim ❤

Aquilo que podia ser, para mim, uma história brilhante acabou por ser apenas aborrecida. Porque eu adorei, de facto, a ideia por detrás da obra. No entanto, a acção é muito lenta, as personagens não têm propriamente uma motivação ou construção, e apesar de o livro funcionar como uma história dentro de uma história, como uma obra de ficção histórica e não ficção científica, continua a deixar muito a desejar em termos do que acontece verdadeiramente ao longo do enredo.

Se formos bem a ver, O Poder só nos oferece o negativo de um mundo revolucionado pela força das mulheres, mas nunca o positivo. Quase parece dar a ideia de que, se porventura algo semelhante fosse a acontecer na vida real, o sexo feminino faria com que a sociedade funcionasse sem a mínima preocupação pela vida humana – homens e mulheres – justificando-se através da violência e da vingança para lidar com tudo à sua volta. E enquanto eu acredito que os extremismos funcionam sempre muito bem na literatura, de forma geral, para dar uma ideia de “e se?”, não consigo concordar totalmente com a ideia premeditada de que só há coisas más a acontecer num mundo onde o feminismo reina. Pelo menos, se não era essa a ideia que Naomi Alderman procurava com esta história, devia tentar incluir mais do que anarquia, violações, toxicodependências, assassínios, monarquias absolutas, guerras mundiais, campos de refugiados, etc.

Por muito complicado que penses que é, tudo é sempre mais complicado ainda. Não há atalhos. Nem para a compreensão nem para o conhecimento. Não podes meter uma pessoa numa caixa. Ouve, até uma pedra é diferente de outra pedra, por isso não sei onde pensam todos vocês que vão chegar classificando seres humanos com palavras simples e pensando que sabem tudo o que precisam. Mas a maioria das pessoas não consegue viver assim, nem mesmo só por uma parte do tempo. Dizem: todas as pessoas excepcionais podem ultrapassar os limites. A verdade é: qualquer pessoa pode ultrapassá-los, qualquer pessoa tem capacidade para isso. Mas só as pessoas excepcionais suportam olhar nos olhos o que está para além delas. (in O Poder, pg. 331).

Acabei por dar-lhe 3/5 ★ no Goodreads, apesar de ser mais um 2,5 do que outra coisa. De facto, eu achei a ideia genial. De facto, o mundo criado pela escritora é tão carregado de infelicidades como praticamente todos os outros livros distópicos que conheço. Apenas achei que, para além da acção muito lenta e algo aborrecida, o conceito por detrás do women-gone-wrong não me fascinou muito. O que acabou por ser uma grande desilusão, pois tinha tudo para ser uma história fenomenal – principalmente mediante os meus gostos literários.

* O By the Library é um blogue afiliado da Wook; ao adquirirem estes livros através dos links fornecidos, estão a contribuir com uma pequena percentagem para mim, potenciando o crescimento do nosso cantinho. Por mais leituras!

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  • Reply
    Andreia Morais
    11 de Dezembro, 2018 at 21:37

    É uma facada no coração quando esperamos muito de um livro e ele nos desilude. Confesso que só conheço a obra de nome, mas fiquei curiosa com o seu conceito e com o seu contexto. Sem grandes referências, achei que teria tudo para ser uma história brilhante. Que pena não ser bem assim :/

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      14 de Dezembro, 2018 at 12:39

      Mas há pessoas que o adoraram. Pode continuar a ser uma experiência positiva para ti sem a minha opinião. Para mim é que não foi de maneira nenhuma 🙁

  • Reply
    Suspiros da Bea
    13 de Dezembro, 2018 at 17:10

    Eu ainda não li, mas ah odeio quando uma pessoa se desilude assim. Aconteceu-me o mesmo com o Coração Negro…

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      14 de Dezembro, 2018 at 12:39

      É, não é? Quando nos desiludimos com os livros custa sempre imenso. Investimos tanto do nosso tempo numa história e depois não corresponde aos nossos ideais. Enfim.

  • Reply
    zosia
    14 de Dezembro, 2018 at 15:56

    O conceito que é desenvolvido parece super interessante! Mas se dizes que é um livro lento, só vou dar uma vista de olhos se alguém que eu conheço o tiver ehe não gosto nada de livros que têm um ritmo assim

  • Reply
    Sofia Costa Lima
    22 de Dezembro, 2018 at 10:27

    Ai, agora estou muito dividida sobre o livro! Queria ler porque vi uma opinião muito boa; agora a tua é má… aiiiiiiiii.

    A Sofia World

    • Reply
      Sónia Rodrigues Pinto
      24 de Dezembro, 2018 at 13:23

      Muitas pessoas adoraram, não sou ninguém para censurar os gostos dos outros mulher! Lê e diz-me o que achaste depois, pode ser que tenhas uma opinião diferente, ahahah

  • Reply
    Carolayne T. R.
    4 de Janeiro, 2019 at 0:56

    Acho que já vi/ouvi esse título algures, mas se foi o caso, também não lhe vi grande interesse! 😱

    LYNE, IMPERIUM BLOG

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